tratamentos para linfoma de hodgkin
Imagine a cena: Ricardo, 52 anos, está diante do espelho fazendo a barba, como faz todas as manhãs. Ao passar a lâmina pela mandíbula, sente um pequeno calo, um nódulo indolor logo abaixo do lobo da orelha. Ele ignora por algumas semanas, achando que é apenas um “gânglio inchado” por causa de um resfriado recente. O que Ricardo não sabe — e que muitos só descobrem no meu consultório — é que aquele pequeno volume pode ser o primeiro sinal de que uma das suas glândulas salivares precisa de atenção especializada.
As glândulas salivares são as heroínas silenciosas do nosso trato digestivo superior. Temos três pares principais: as parótidas (as maiores, localizadas à frente das orelhas), as submandibulares (sob a mandíbula) e as sublinguais (no assoalho da boca), além de centenas de glândulas menores espalhadas pela mucosa. Elas não servem apenas para “molhar a comida”. A saliva é um complexo fluido biológico que protege os dentes contra cáries, inicia a digestão do amido e equilibra o pH da boca, evitando infecções por fungos e bactérias. Quando algo sai do prumo nesse sistema, o impacto vai muito além da boca seca. O cenário mais comum que recebo são os tumores de glândulas salivares. A boa notícia é que a maioria dos tumores na parótida, como o Adenoma Pleomórfico, é benigna.
No entanto, eles são “espaçosos”. Conforme crescem, podem empurrar estruturas nobres. É aqui que entra a precisão da cirurgia de cabeça e pescoço. A parótida, especificamente, é atravessada pelo nervo facial, o responsável por todos os movimentos da face — sorrir, piscar, franzir a testa. Operar essa região é como desarmar um dispositivo delicado onde os fios são microscópicos. Uma das maiores preocupações dos pacientes é: “Doutor, meu rosto vai ficar torto?”. Graças à monitorização nervosa intraoperatória e técnicas minimamente invasivas, conseguimos preservar a funcionalidade do nervo na imensa maioria dos casos, tratando o tumor e mantendo a harmonia estética do paciente. Mas nem tudo é tumor. Existem as “pedras” nas glândulas, as sialolitíases.
Imagine a dor de uma cólica renal, mas localizada na boca sempre que você sente o cheiro de comida e a glândula tenta bombear saliva através de um canal entupido. O inchaço é imediato e doloroso. Antigamente, a solução era quase sempre remover a glândula toda. Hoje, procedimentos endoscópicos (sialoendoscopia) permitem retirar o cálculo preservando o órgão. Muitos pacientes chegam ao consultório com queixas de disfagia (dificuldade para engolir) ou alterações na voz, acreditando ser algo na garganta, quando o problema reside na falta de lubrificação adequada ou em compressões glandulares. O diagnóstico precoce, feito através de uma ultrassonografia bem executada, uma ressonância magnética ou a PAAF (punção por agulha fina), é o que separa um tratamento simples de uma intervenção complexa.